A quarta operadora do mercado nacional admitiu, numa conferência de imprensa em Lisboa a 23 de outubro de 2026, que pode acabar por sair do país. O futuro da Digi em Portugal ficou dependente de um processo técnico que poucos consumidores acompanham — a renovação das licenças de espetro que a MEO, a NOS e a Vodafone têm e que expiram em 2027. Para quem paga uma fatura de internet e televisão todos os meses, a questão não é regulatória: é saber se continuará a haver uma operadora low-cost a pressionar os preços.

Este artigo descreve o que foi efetivamente dito e pedido. Não antecipa decisões da ANACOM nem prevê alterações de preços.
O que a Digi em Portugal pediu à ANACOM
O regulador avançou no sentido de renovar os direitos de utilização de espetro dos três operadores históricos, optando por períodos de utilização mais curtos do que os inicialmente previstos. A Digi em Portugal considera que isso não é suficiente para garantir concorrência equilibrada e apresentou um conjunto de pedidos concretos.
Em primeiro lugar, a Digi em Portugal defende que o espetro que expira em 2027 seja atribuído através de leilões competitivos, com um limite por operador e com um bloco reservado ao entrante mais recente no mercado.
Caso a ANACOM mantenha a renovação, a operadora pede que lhe sejam associadas três condições:
- Atribuir o bloco de 2×5 MHz ainda não alocado na faixa dos 700 MHz ao operador com menos espetro abaixo de 1 GHz.
- Associar às renovações obrigações de partilha de espetro e de roaming nacional.
- Não renovar os 140 MHz que os operadores não solicitaram e alinhar os prazos em 2033.
O argumento de fundo é o acesso às faixas baixas. O espetro abaixo de 1 GHz é o que permite cobrir áreas extensas e chegar ao interior dos edifícios com menos antenas. Sem ele em quantidade suficiente, uma operadora consegue competir nas cidades mas tem dificuldade em oferecer a mesma qualidade no resto do país.
Digi em Portugal: porque é que isto interessa a quem vê televisão
A ligação entre espetro móvel e televisão não é evidente, mas existe por duas vias.
A primeira é comercial. Em Portugal, a televisão vende-se quase sempre dentro de pacotes convergentes que incluem internet fixa, móvel e TV. Uma operadora que não consiga ser competitiva no móvel tem dificuldade em montar um pacote atrativo, e é precisamente a pressão desses pacotes mais baratos que tem contido os preços dos restantes. A presença da Digi em Portugal funciona, nesse sentido, como um travão sobre a fatura de quem nem é cliente dela.
A segunda é de cobertura. Parte da oferta de televisão e de internet em zonas menos densas depende de redes sem fios em localização fixa. Quem tem menos espetro baixo tem menos capacidade de servir essas zonas.
O historial que a Digi em Portugal invoca
A Digi em Portugal sustenta o seu pedido com o que pagou para entrar. Em 2021 desembolsou 30 milhões de euros por 2×5 MHz na faixa dos 900 MHz, um valor 56,2 % superior ao que cada detentor pagou por um lote na faixa dos 700 MHz, cerca de 19,20 milhões de euros. O ponto da operadora é simples: pagou mais por menos, e agora vê os concorrentes a renovarem posições sem concurso.
O que a Digi em Portugal disse sobre sair do mercado
Importa ser preciso quanto ao que foi dito, porque os títulos têm circulado de forma mais categórica do que as declarações. Valentin Popoviciu, administrador executivo do grupo, afirmou que a saída é «um dos desfechos» possíveis e que deve ser ponderada mais tarde, não que a decisão esteja tomada. Mencionou como referência a saída da Deutsche Telekom da Roménia.
Na mesma conferência, o responsável disse que os consumidores estão satisfeitos e que os preços se mantêm estáveis — ou seja, o alerta é sobre as condições futuras de investimento, não sobre o desempenho atual. A Digi em Portugal emprega cerca de 1 900 pessoas e entrou no mercado em 2024 através da compra da Nowo.
A Digi em Portugal apresentou ainda um estudo que encomendou à Lisbon Economics, segundo o qual a sua saída poderia custar aos consumidores até 3,5 mil milhões de euros ao longo de 15 anos. Vale a pena registar a origem: trata-se de um estudo encomendado pela própria operadora, não de uma avaliação independente nem de um número do regulador.
O que isto pode significar para a sua fatura
Com honestidade: nada, para já. Não há qualquer alteração anunciada de preços, de canais ou de condições contratuais, e a ANACOM não concluiu o processo. O que mudou foi o grau de incerteza sobre a estrutura do mercado a partir de 2027.
O que ainda não se sabe
Três pontos continuam abertos, e convém desconfiar de quem os apresente como resolvidos: a decisão final da ANACOM sobre as renovações e respetivas condições; a resposta dos três operadores históricos, que não se pronunciaram nos termos em que a Digi coloca a questão; e o que a própria Digi fará se o enquadramento não mudar. Qualquer afirmação definitiva sobre o destino da Digi em Portugal é, neste momento, especulação.
Como reagir sem decidir à pressa
Para quem está a meio de um contrato ou a pensar mudar, há três atitudes sensatas:
- Não mude por antecipação. Mudar de operadora por causa de um processo regulatório que ainda não terminou é assumir um custo certo por um risco incerto.
- Verifique o período de fidelização do seu contrato atual. É o dado que determina a sua margem de manobra se algo mudar.
- Separe a televisão do resto do pacote, ao menos mentalmente. Saber quanto da fatura corresponde à TV ajuda a comparar alternativas com clareza.
Esse último ponto é cada vez mais relevante porque a televisão deixou de estar presa ao pacote do operador. Se já vê televisão através de uma aplicação no televisor, o nosso guia de configuração em Smart TV percorre os passos, e a nossa explicação sobre como funciona a IPTV cobre as bases.
Resumo
A Digi em Portugal pediu à ANACOM que repense a renovação das licenças de espetro da MEO, NOS e Vodafone, propôs leilões com limites e condições de partilha, e admitiu a saída do mercado como um dos cenários possíveis se as condições não mudarem. Nada está decidido e nada muda hoje na sua televisão.
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Fontes
Os pedidos apresentados à ANACOM, os valores pagos em 2021 e as declarações de Valentin Popoviciu são relatados pelo ECO, 23 de outubro de 2026. O enquadramento do processo, o número de trabalhadores e o estudo da Lisbon Economics são relatados pelo Pplware, 23 de outubro de 2026.



