A quarta operadora do mercado português admitiu publicamente que pode sair do país. Em conferência de imprensa em Lisboa, a 23 de outubro de 2026, a DIGI pediu à Anacom que repense a decisão de renovar as licenças de espectro móvel da MEO, da NOS e da Vodafone, e avisou que a saída de Portugal é «um dos resultados possíveis» se as condições de concorrência não mudarem.

Para quem vê televisão e usa internet em casa, o tema parece distante — espectro, leilões, megahertz. Não é. A presença de uma quarta operadora é um dos fatores que mais pesa nos preços dos pacotes de casa, televisão incluída.
O que a quarta operadora pediu à Anacom
A quarta operadora, a DIGI, entrou no mercado português em 2024 e participou na consulta pública da Anacom sobre a renovação das licenças que expiram em 2027. O regulador tinha emitido, em julho de 2026, uma decisão no sentido de renovar os direitos de uso de espectro dos três operadores históricos, por períodos mais curtos do que os 20 anos que estes pediam.
A posição da quarta operadora é que a renovação, mesmo encurtada, não protege a concorrência, porque a impede de disputar esse espectro. O que pede, por ordem de preferência:
- Leilão competitivo das licenças que expiram em 2027, com um limite por operador e um bloco reservado ao operador mais pequeno.
- Se a renovação avançar, que seja atribuído o bloco de 2×5 MHz na faixa dos 700 MHz que continua sem dono desde 2021, ao operador com menos espectro abaixo de 1 GHz, sem que nenhuma empresa perca direitos.
- Que a renovação fique condicionada a obrigações de partilha de espectro e de roaming nacional.
- Que não sejam renovados os 140 MHz que os operadores não pediram, e que os prazos sejam alinhados em 2033.
O argumento técnico central da quarta operadora é o espectro baixo, abaixo de 1 GHz, que é o que garante cobertura em interiores e em zonas rurais. Sem ele, um operador pode ter preços agressivos e continuar a ser percebido como pior.
Os números que estão em cima da mesa
Alguns valores ajudam a perceber a dimensão do processo:
- A DIGI diz ter pago 30 milhões de euros em 2021 por 2×5 MHz na faixa dos 900 MHz — 56,2% mais do que os 19,20 milhões que cada detentor pagou por um lote de 700 MHz.
- A quarta operadora afirma empregar cerca de 1.900 pessoas em Portugal.
- Um estudo da Lisbon Economics, coordenado pelo economista Abel Mateus e encomendado no âmbito da contribuição da DIGI para a consulta, estima, segundo o Observador, que os consumidores podem perder até 3,5 mil milhões de euros em 15 anos se a quarta operadora for empurrada para fora do mercado.
- A consulta pública terminou por volta de 9 de outubro de 2026; a DIGI entregou o seu estudo no dia 8.
Convém ler estes números com a devida cautela. O valor de 3,5 mil milhões é uma estimativa de um estudo encomendado por uma das partes interessadas, não uma conclusão do regulador, e projeções a 15 anos dependem sempre dos pressupostos escolhidos. Serve para enquadrar a ordem de grandeza do que a DIGI alega estar em jogo, não como um facto fechado.
O que diz a Autoridade da Concorrência
A DIGI não está sozinha neste ponto específico. A 9 de outubro, a Autoridade da Concorrência recomendou que qualquer renovação das licenças inclua condições de acesso às redes e de roaming nacional — exatamente o tipo de remédio que a quarta operadora reclama. É um sinal relevante, ainda que a decisão final continue a ser da Anacom.
Porque é que isto chega à fatura da televisão
A ligação entre espectro móvel e pacotes de TV não é óbvia, mas é direta. Em Portugal, a oferta vende-se quase sempre em pacote: internet fixa, televisão, telefone e cartões móveis no mesmo contrato. A quarta operadora entrou no mercado a competir precisamente nessa frente, com serviços móveis e pacotes de casa que incluem televisão, e o efeito mais visível de um quarto concorrente é a pressão sobre os preços dos pacotes dos outros três.
Daí decorrem três consequências práticas para um consumidor:
- Menos concorrência tende a significar menos promoções agressivas e menos margem de negociação na renovação de um contrato.
- A fidelização volta a pesar mais. Quando há quatro operadores a disputar clientes, sair de um contrato é mais fácil; com três, menos.
- O serviço de televisão fica mais dependente do pacote. Quanto menos alternativas houver no mercado, menos liberdade há para separar a internet da televisão e escolher cada parte à medida.
O que ainda não se sabe
É importante distinguir o que está confirmado do que é cenário. Está confirmado que a quarta operadora pediu formalmente a revisão da decisão e que admitiu a hipótese de sair. Não está confirmado nenhum prazo, nenhuma condição concreta de saída, nem qualquer decisão final da Anacom sobre os pedidos. O próprio responsável da empresa disse que vai «ver o que acontece» em função do resultado do processo.
Também vale notar que a leitura do impacto no consumidor difere entre as fontes: o Observador refere a estimativa dos 3,5 mil milhões de euros, enquanto o ECO sublinha que a quarta operadora não apresentou números de impacto direto nos preços e que o seu responsável descreveu os preços atuais como estáveis.
Quarta operadora: o que vigiar nos próximos meses
- A decisão final da Anacom sobre a renovação e sobre eventuais condições de partilha de rede e roaming nacional.
- O destino do bloco de 2×5 MHz nos 700 MHz, que exige articulação com o Governo.
- Os preços dos pacotes nas próximas campanhas: é aí que a concorrência, ou a falta dela, se nota primeiro.
- A duração dos contratos que lhe propuserem. Num mercado que pode ficar com três operadores, um período de fidelização longo vale menos a seu favor.
Enquanto o processo corre, há uma coisa que continua inteiramente nas suas mãos: não ter de depender de um único fornecedor para tudo. Separar a ligação à internet da forma como vê televisão dá-lhe margem de manobra, seja o mercado de três ou de quatro operadores. Os nossos guias de instalação em Smart TV e de instalação em Android mostram como configurar um serviço de televisão por internet no equipamento que já tem, e como usar IPTV explica o essencial.
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Fontes
- Digi pede à Anacom que reconsidere renovação de licenças móveis para «salvaguardar a concorrência» no mercado — Observador, 23 de outubro de 2026
- Digi admite sair de Portugal e pede à Anacom que repense decisão de renovar licenças — ECO, 23 de outubro de 2026



